O valor de um trabalho

De todas as actividades realizadas pelo ser humano, as artes são, de longe, as mais prejudicadas pelo pensamento banal e quotidiano de que tais serviços podem ser remunerados através de alguma outra forma que não monetariamente.

Enquanto fotógrafo, já tive a oportunidade de ser “contratado” para registar eventos a troco de coisas que não servem para eu pagar as contas. Nomeadamente, exposição e portfólio. Ou um jantar. Coisas assim.

Enquanto que é bom trabalharmos activamente na divulgação dos nossos serviços, não devemos esquecer o nosso valor, e o valor daquilo que fazemos. Podem consultar o meu outro artigo nesta página acerca da minha forma de trabalhar, especificamente com modelos.

Então, há ocasiões em que devemos cobrar, e outras não? Vejamos alguns casos-tipo:

1. Uma modelo requer o serviço de um fotógrafo
Aqui, o fotógrafo é requisitado e pode escolher se vai cobrar pela sessão fotográfica. Vai gastar deslocação? Vai obter fotografias de qualidade que justifiquem essa sessão como um investimento? A modelo tem um nome de peso nas redes sociais que levem a uma grande publicidade posterior?

2. Um fotógrafo requer o serviço de uma modelo
Tal como na situação anterior, a modelo pode decidir cobrar ou não, por ser fotografada. Pode ter a agenda ocupada e precisar de adiar compromissos, ou pode aproveitar o dia livre para fotografar por “desporto” e pelo prazer de passear. Pode ter já demasiadas sessões fotográficas idênticas ao que o fotógrafo propõe e não ir ganhar nada com isso, e assim cobrar a sessão; ou pode aproveitar e fazer aquelas fotografias que já andava a pensar fazer há algum tempo.

3. Alguém solicita o serviço de fotografia para registar um evento (casamento, baptizado)
Em princípio, pela escala do evento, deverá ser sempre remunerado. Excepções? Se e apenas o fotógrafo quiser presentear os noivos oferecendo o serviço de fotografia, por exemplo. Mas a iniciativa deverá vir do fotógrafo, e não de quem solicita o serviço.

4. Pedem a uma bailarina para dançar em determinado evento
Aqui é idêntico à situação anterior: deverá ser sempre um trabalho remunerado, excepto se, por iniciativa da bailarina, existir algum motivo forte suficiente para tornar esse serviço uma oferta. A iniciativa terá de vir somente e apenas da bailarina.

5. Há uma sessão fotográfica para uma loja de roupa
O fotógrafo deverá cobrar essa sessão? E as modelos intervenientes? Aqui é uma situação mais complexa, mas aplicam-se os mesmos princípios. Quem solicita a sessão – o/a proprietário/a da loja – deverá negociar as condições com o fotógrafo. As modelos que participam deverão negociar as condições com quem solicita a sua presença: é o fotógrafo que as convida para a sessão ou o responsável da loja? O “negócio” pode bem ser pago em numerário ou por exemplo, se o/a proprietário/a da loja assim o entender, através de peças de roupa à escolha das modelos. 

Existem muitas mais situações, pelo que enumerei apenas algumas de exemplo. Regra geral, quando solicitamos um serviço, não devemos nunca partir do princípio que vamos poder pagar o mesmo através de… um jantar. Ou uma palmadinha nas costas e promessa de muita publicidade que depois nunca se sabe se vem ou não.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.